quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Procrastinação

Muitos meses se passaram desde a minha última aparição por estas bandas. Com muitos baixos, lá ultrapassei as dificuldades da etapa anterior. Agora estou na etapa maior e volto a cair nos mesmos erros. Nem as minhas resoluções de ano novo me salvam.
Isto às vezes parece que o destino, o Fatum, o acaso, os astros, whatever, resolveu mostrar-me qual é o meu problema: procrastinação.
O que é a procrastinação? É o adiar constante de tarefas, resoluções por vários motivos, sendo o mais comum o medo do insucesso, de falhar, por não se achar capaz de cumprir o plano idealizado. Obrigada programa "Sociedade Civil", que sempre apresenta temas que enriquecem a minha realidade.
É claro que o sentido deste verbo lembra imediatamente a canção de António Variações "É p'rá amanhã", todo o português o saberá associar. No programa anteriormente referido, apresentaram um poema fantástico de Fernando Pessoa, mais concretamente de Álvaro de Campos e que ilustra de uma forma sublime a procrastinação. Devo reconhecer que Pessoa tem sempre o poema certo para os momentos fulcrais da minha vida. Uma boa resolução de ano novo é ler mais poesia!
Aqui fica Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

14 - 4 - 1928

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002


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