Muitos meses se passaram desde a minha última aparição por estas bandas. Com muitos baixos, lá ultrapassei as dificuldades da etapa anterior. Agora estou na etapa maior e volto a cair nos mesmos erros. Nem as minhas resoluções de ano novo me salvam.
Isto às vezes parece que o destino, o Fatum, o acaso, os astros, whatever, resolveu mostrar-me qual é o meu problema: procrastinação.
O que é a procrastinação? É o adiar constante de tarefas, resoluções por vários motivos, sendo o mais comum o medo do insucesso, de falhar, por não se achar capaz de cumprir o plano idealizado. Obrigada programa "Sociedade Civil", que sempre apresenta temas que enriquecem a minha realidade.
É claro que o sentido deste verbo lembra imediatamente a canção de António Variações "É p'rá amanhã", todo o português o saberá associar. No programa anteriormente referido, apresentaram um poema fantástico de Fernando Pessoa, mais concretamente de Álvaro de Campos e que ilustra de uma forma sublime a procrastinação. Devo reconhecer que Pessoa tem sempre o poema certo para os momentos fulcrais da minha vida. Uma boa resolução de ano novo é ler mais poesia!
Aqui fica Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não... Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... Esta espécie de alma... Só depois de amanhã... Hoje quero preparar-me, Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte... Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro... Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã... Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático Serão convocadas por um edital... Mas por um edital de amanhã... Hoje quero dormir, redigirei amanhã... Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo... Antes, não... Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã... Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... Sim, talvez só depois de amanhã... O porvir... Sim, o porvir... 14 - 4 - 1928
In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002 | |
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